terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Coração partido

Era uma dor, mas não era uma pontada, poderia dizer que era uma sensação, mas seria algo muito abstrato e o que ele sentia lhe parecia muito palpável, não podia ser uma sensação,definitivamente era físico, devia estar sofrendo alguma obstrução na artéria, algo de errado do ponto de vista fisiológico.

Mas não havia motivo para isso, não estava exausto, não se esforçara demais, se encontrava em bom estado físico, se exercitava e comia bem, seguindo a cartilha que qualquer nutricionista ensinava.

Às vezes esses problemas aparecem do nada, nunca se sabe, pode ser um problema congênito, algo que sempre teve e nunca desconfiou. Alguma coisa a ver com genética, nunca entendeu bem isso e o desconhecido seria uma boa explicação.

Colocou a mão no bolso para pegar o celular e discar para a emergência e um papel caiu no chão. Olhou para o papel e releu as palavras que tanto o magoaram e ficou claro para ele o que era ter um coração partido.

Rocha

Estava sentado no mesmo canto do quarto há alguns minutos quando a luz atravessou o vidro da janela vindo diretamente nos seus olhos e tirando-o do transe que se encontrava. Mas ele continuou imovel, mesmo que por dentro ele estivesse mais aceso do que nunca.

E os acontecimentos dos últimos meses vinham à sua mente, do início da doença de sua mãe e de como aquilo que não parecia algo sério foi evoluindo e a consumindo pouco a pouco. Cancêr, foi isso que o médico disse. Não que o nome pudesse mudar algo.

Lembrava de como estava triste, mas se manteve firme no dia do enterro dela, olhando ao redor e vendo como seu pai e seus irmãos menores estavam devastados pela perda, como se nada mais pudesse lhes dar força a seguir.

Seu pai achou que tal força estaria num copo, não força propriamente dita, mas algo que o mantivesse em pé pelo resto do dia. Mesmo que esse ritual fosse necessário em cada dia que estivesse por vir.

Nada poderia ser mais errado do que isso e a cada dia ele se afundava mais num universo próprio agindo de modo mais automático, indo embora aos poucos, tanto que ele não estranhou o dia que achou um bilhete de despedida na porta e o pai inerte na cama.

E agora lá estava ele sentado no canto pensando se seria o próximo a desistir. Mas sentia a mesma força que sentiu no enterro de sua mãe, e sabia que iria continuar, sabia que seria aquele que seria a rocha para seus irmãos, para que eles não precisassem sacrificar nada e serem rochas como ele. O desespero terminava nele. Sabia disso.

Abriu a porta e os viu olhando pra ele e olhou de volta com firmeza, com a certeza de protegê-los de tudo o que poderia aparecer. Abraçou-os e disse com uma voz baixa, mas decidida, "Sairemos dessa".

Fechou os olhos com a certeza de que não estava precisando se convencer.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A mosca

Seis horas da manhã. Ok. Já se passaram os cinco minutos que usava toda manhã para se preparar para o dia que teria pela frente. Olhou pela janela e viu que era um dia claro, sem nuvens e pensou que pelo menos seria agrádavel sair da cama.

E aprontou suas coisas, conferiu o que tinha de conferir, ligou a tv e olhou o noticiário. Ok. Trânsito ruim como sempre, nada que o afetasse como novidade, faz parte da vida moderna e todo mundo aguenta, não seria com ele que seria diferente.

Certo, tudo pronto, hora de sair. Pegou uma torrada e segurou um copo com suco de laranja e viu uma mosca pousada nele. Levantou o copo, a mosca parada como se nada tivesse mudado e para ele aquilo soou como desafio.

"Aonde já se viu uma mosca que não se mexe, nada, eu poderia tê-la matado, bicho estúpido, perdeu o senso de proteção?!". E decidiu que não iria prestar atenção na mosca, já estava atrasado mesmo. Não iria se atrasar mais pra matar uma mosca

Mas aquilo ficou com ele pelo resto do dia. Pensou na atitude desafiadora da mosca e ficou imaginando que talvez aquele bicho tivesse mais coragem do que ele. E decidiu provar que poderia desafiar o imponderável também.

Saiu do trabalho e atravessou uma rua movimentada e manteve o olhar desafiante mesmo vendo um ônibus vindo em sua direção, com a certeza de que a confiança o fazia se sentir seguro diante de qualquer situação, do imponderável.

Acontece que o ônibus não estava atrasado.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Conto de fadas

Era uma vez uma garota e um garoto, daqueles que você conhece, daquelas que você se identifica. Nada de diferente de tudo o que existe, nada de novo, pessoas tentando ser feliz em suas vidas como você também busca, como eu também busco.

Era uma vez um mundo cheio de momentos bons e ruins em que o acaso aparece frequentemente e as pessoas se encontram e se desencontram. E o garoto encontrou a garota num dia qualquer.

Era uma vez um segundo que pareceu uma eternidade em que um encontrou o outro, mas encontrou de verdade, não apenas viu, se encontrar mesmo, se achar um no outro de modo que não se restasse dúvida de que aquele era o ápice de suas vidas.

Era uma vez uma vida cheia de imprevistos, daqueles que parecem se pequenos, mas se acumulam mudando o curso de tudo aquilo que tínhamos planejado, nos afastando de coisas que nunca achamos que ficariam longe de nós. A parte triste é que o efeito vale para pessoas também.

Era uma vez um garoto e uma garota, mas como já diz o começo de nossa história...era.

No princípio era a palavra

Nada mais a dizer, talvez nem escrever seria possível, um branco, um silêncio, um vazio, nem metáforas mais conseguiam aparecer. O que fazer se nada mais saia de sua mente, de sua boca, de seus dedos?

O mundo fértil que existia em sua mente deixara de existir, era um deserto agora, uma cena inóspita dessas de um filme pós-apocalipse que passa na madrugada e que te bota a dormir antes da metade.

Sentimentos que fluiam com naturalidade sumiram, as histórias que sua imaginação lhe dava não mais existiam, as imagens em sua mente desapareceram e o deixaram com um livro em branco a ser folheado.

E parou para respirar por um segundo e percebeu que conseguiu escrever muito e dizer muito, mesmo sem ter certeza de ter algo a dizer, de que do nada também surge algo, que no princípio era a palavra e dela tudo nasceu.

Nunca mais temeu não ter o que dizer.

sábado, 8 de novembro de 2008

Esperando na janela

Com os cotovelos apoiados na janela e com o queixo apoiado nas mãos olhava para a chuva lá fora, com um ar de cansaço, como se não aguentasse mais esperar, olhando em volta de quando em quando.

A chuva teimava em insistir em cair e ele teimava em olhar. Num duelo de vontades tinha a certeza de que ganharia, pensava nisso confiante na sabedoria dos seus seis anos e de tudo o que vivenciara, como se os seis anos fossem seis séculos. Emburrava toda vez que alguém lhe contradizia.

A mãe sorria toda vez que ele ficava parando olhando na janela esperando a chegada do pai, acreditava que a boa relação entre ambos era o que ainda a mantinha em casa, dentro de um casamento que já morrera há muitos anos.

O que ela não sabia é que o menino esperava pra ver o quão bêbado seu pai chegaria e tinha em sua mente que toda vez que não estivesse na janela na hora de sua chegada seria um dia ruim. Mantinha-se firme lá na esperança de evitar um dia ruim.

"Menino, venha cá" disse sua mãe e lá foi ele correr a ajudá-la sabendo que era uma corrida contra o tempo.

O barulho da porta atrás dele o paralisou e aquela cicatriz em suas costas começou a doer novamente em antecipação.

sábado, 27 de setembro de 2008

Falta

Surpreendeu-se com a brisa que acompanhava aquele dia, a previsão era de um dia ensolarado, mas seco. Não que fosse uma adepta de previsões do tempo, sempre as considerara um exercício de sorte, como se fosse um cara e coroa. Falta de acertos parece ser algo comum no ramo.

Decidiu aproveitar aquela pequena surpresa ao pé de uma árvore na praça que ficava à dois quarteirões de sua casa. Sentou-se com o livro que ganhara há pouco tempo e que nunca tinha aberto. Falta de tempo é algo comum na vida moderna.

O livro era um livro de poemas, daqueles que se encontra em qualquer sebo. Ganhara de alguém que não estava mais em sua vida. Falta de comunicação foi o problema.

Ao abrir o livro viu um pequeno bilhete que deveria estar preso no livro "para quem faz meu coração cantar, meu olhos sorrirem e todas essas baboseiras que dizem para expressar o que eu sinto, mas não sei dizer". Falta de atenção nunca ter notado isso antes.

Falta...de repente percebeu como sentia a falta dele.


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Loucura

Era o mesmo pensamento que sempre lhe atormentava, o mesmo raciocínio vazio que desencadeava toda uma história, uma fantasia, é como se fosse uma música seguindo sempre com a mesma batida.

De início era como se fosse apenas um zunido, que ele não ligava, mas finalmente o incomodava a ponto de não mais importar nada a seu redor. E então ele parava e respirava fundo como se isso lhe retomasse todo o rumo.

Pensava consigo mesmo que aquilo não iria deixá-lo louco, que era uma questão de retomar o controle e voltar ao normal. Afinal, como poderia estar louco se tinha ciência do que lhe incomodava, era apenas uma questão de como contornar a situação.

E ficava feliz consigo mesmo por conseguir conter aquilo tudo e pensava que qualquer dia seria bom consultar alguém, pois acreditava que saúde mental era tudo. Adorava saber que estava bem apesar deste pequeno contratempo.

Voltava a seu lugar ciente de que pelo menos não incomodava ninguém. E nisso ele tinha razão, o ritual era o mesmo todos os dias desde que ele tinha sido internado.


domingo, 14 de setembro de 2008

Pré-escola

Um suspiro de enfado percorreu aquela quieta sala e ao mesmo tempo parecia que todos os olham se voltavam ao garotinho que permanecia com um sorriso de desafio como se quisesse dizer "se vocês não tem coragem de dizer, eu digo". A mãe olhou com olhos de reprovação tal sorriso e ele abaixou os olhos.

Continuou, então, a folhear uma revista infantil um tanto quanto já velha. E a cada folha ficava mais entendiado, repetindo uma vez, duas, três vezes a mesma leitura. Não sabia o porquê de ter que ficar tanto tempo esperando.

Finalmente sua mãe puxou-o pelo braço e o levou ao encontro de uma senhora de idade que lhe estendeu a mão e perguntou: "Gostaria de estudar nessa escola?". E o menino assentiu com a cabeça, curioso com o que seria uma escola.

E saiu em disparada pelo corredor como se ficasse livre de todo o enfado daquela cinzenta tarde. Mesmo que sem saber passaria anos em tédio dentro de outras salas como aquela.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Fingertips

And as he turned the corner he just froze. It was the first time that he'd saw her. She was standing there with a glowing look on her face staring at something that he couldn't figure it out considering the distance that she was.

But that really didn´t matter to him. He was caught by that image, the image he was unable to define with words. An image so powerful that only could be explained by images and feelings that he had in his mind.

To him, she was like the first snow, a quiet beauty that surrounds you and embrace you into a peaceful embrace. She had a smile on her face of an angel, the smile that would mean redemption and open the gates of heaven to a lost soul like him.

And he woke up from his daze as he realized that she was walking towards him. But he stood there petrified. And she touched him gently him with her fingers and said " Excuse me" and walked away.

Leaving him with just a chill feeling inside and a smile for the rest of his day.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Incertezas

Decidir nunca foi fácil, uma miríade de opções sempre foi algo que lhe deu o maior prazer, qual o sentido em decidir, não é tão melhor manter uma opção, manter o caminho aberto, afinal qual seria o sentido de se fechar uma porta?

O mundo é repleto de oportunidades e cada uma delas lhe parecia ser mais excitante do que a outra e parecia ser absurdo ter que abdicar do que poderia ser. Tinha firmemente decidido que a única decisão que tomaria em toda sua vida seria a de que nunca iria decidir nada na vida de forma definitiva.

E assim foi, seguiu sua vida tendo este pensamento em mente em cada encruzilhada que a vida lhe apresentava. Viajou, viveu, namorou, curtiu o máximo que pode até eventualmente o tempo chegar e a velhice ser sua companheira.

Parou e com um sorriso no rosto e pensou em tudo o que tinha feito, mas aquele pensamento que o acompanhara durante toda sua vida desaparecera ao perceber que todas as oportunidades que achara ter abraçado não eram suficientes para compensar as decisões que ele abdicara.

Estava só, não fizera a decisão de amar alguém; estava doente, não decidira se cuidar; estava arruinado, não guardara nada do que ganhou durante a vida.

E ao viver em cima de incertezas chegou à certeza de que tinha errado.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

To the moon and back

Meu gosto musical sempre foi influenciado por minhas amigas, passei a gostar de certas músicas por estar com determinadas pessoas. Algumas que nem vejo mais, mas a música delas permanece. Estranho como certas coisas ficam.

Lembranças são coisas engraçadas, passo a gostar de tal música, de tal cantor por causa de alguém, mas a própria pessoa não vejo mais. Mas a marca dela fica em você, ouvindo a música você passa a apreciar algo que sozinho talvez não se aprenda.

Acho que no tempo que dura a música não se pensa em porque terminou uma relação, porque se afasta da pessoa, em nada do que de ruim aconteceu com o tempo. Para ser sincero, nem o de bom se lembra, durante a música só se tem a lembrança do momento em que ouviam juntos, o que por si só já me parece bom.

Enfim, lembranças musicais são engraçadas, mas infelizmente duram em média três minutos.

Multidão

Uma manhã como qualquer outra, andando em direção ao trabalho, apressada, como sempre, atrasada como sempre, em meio à multidão que provavelmente tinha a mesma motivação que ela.

Nunca gostou de multidões.

Se sentia espremida, fechada, quase que enclausurada em meio à tantas pessoas. Pensava em um milhão de coisas ao ir em direção ao serviço, fechava-se em si mesmo, colocando-se numa espécie de piloto automático.

Odiava aquela gente toda, odiava o cheiro, o barulho, a visão. Achava que era uma tortura à todos os sentidos. Só de pensar nisso antes de sair já lhe causava arrepio, tremia toda como se tivesse insetos rastejando em sua pele.

Como era bom chegar em sua sala, sentar sozinha com suas coisas, no silêncio, somente ela, com seus pensamentos, sem nada a distrair, sem ter que se preocupar, com todo o tempo do mundo. Parou então por um minuto e abaixou a cabeça.

Nunca gostou de estar sozinha.

domingo, 10 de agosto de 2008

Recomeço

Com o coração acelerado, ofegante, nervoso, parecia que ainda lhe faltava muito para chegar ao encontro dela, o recado que lhe fora dado horas atrás ainda ecoava em sua mente. "Preciso falar urgente com você".

Um milhão de pensamentos corriam em sua mente, um pior que o outro, levando-o à uma retrospectiva dos acontecimentos da última semana, das brigas, dos desentendimentos, dos mal entendidos.

Todos esses pensamentos só o levavam à uma conclusão: é o fim, ela não me quer. E uma dor no seu peito mostrava quanto o fim lhe era doloroso. Não queria isso, a amava com a mesma intensidade desde o primeiro beijo e sabia que era muito desajeitado para dizer com clareza o quanto a amava e isso certamente foi o que acabou com tudo.

Ainda sem fôlego chegou e abriu a porta rapidamente querendo uma solução para seu dilema. Entrou na sala e ela ali parada com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto surrando um "eu te amo, estou grávida".

Todos os seus pensamentos que até ali o acompanharam desapareceram consumidos por uma onda de felicidade enquanto ela o abraçava. A felicidade por si só se mostrou algo arrebatador, curando feridas e pavimentando novos começos.

E para ele, este era um novo começo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Caixa de música

Parados olhando um pro outro no meio da praça, entre o escorregador e o balanço, ficaram admirando seu mais novo brinquedo, de modo a não mais notar os antigos brinquedos que de tanto usarem já lhe pareciam cansativos.

Era uma pequena caixa de madeira entalhada com detalhes em dourado que o menino tinha em suas mãos. A menina, menor do que ele, se colocava na ponta dos pés para tentar enxergar algo, sem muito sucesso.

Abaixando-se um pouco o menino abriu a caixa e dentro dela uma pequena bailarina começou a girar ao som da música que tocava. Ficaram um tempo olhando para aquilo sem muito o que entender.

Entendiados com a simplicidade do que consideravam um brinquedo, fecharam a caixa e o menino tornou a guardar em seu bolso. Foi brincar com os outros um tanto quanto decepcionado, esperando algo mágico naquela caixa que fazia sua mãe sorrir e chorar ao mesmo tempo.

O que ele não poderia saber na juventude de seus cinco anos era que aquela caixa era tudo o que sobrara da mãe que sua mãe nunca conhecera.

domingo, 20 de julho de 2008

Sobre o fim de tarde

Eu adoro fins de tarde, sempre gostei, acho que o céu alaranjado a coloração mais bonita que existe, prefiro muito mais do que um céu azulado. Acho que não se deve somente à motivos estéticos ou ao fato de preferir um "vermelho" à um azul.

Acho que o céu alaranjado me lembra descanso, por ser a cor do céu no momento em que o dia chega ao fim, em que eu saía do trabalho (na maioria das vezes) e isso me dá uma sensação de dever cumprido ao final do dia.

É como se no roteiro de nossas vidas essa é uma parte obrigatória e uma vez cumprida podemos fazer algo que seja mais do nosso agrado, se a vida fosse música esse seria o início do solo de guitarra. Não gosto de ver a vida com roteiro com cronograma, mas isso é assunto para outra hora.

Enfim, tudo isso só pra dizer que eu gosto de um céu laranja...esperem pra ver quando eu falar de desertos.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Gaiola

Ok, está tudo certo, tudo pronto, tenho certeza de que não esqueci nada, pensou ele enquanto ajeitava suas coisas para sair. Fazia muito tempo que ele se preparava para isso, pensou durante dias em como fazê-lo.

Lembrou de já ter feito tantas vezes o mesmo ritual e do resultado desastroso que se seguiu. Como cada dia frustrado tinha uma desculpa perfeita engatilhada e como não repetir o mesmo erro do dia anterior tornou-se o seu mantra pessoal.

Sorriu ao abrir a porta ao sentir que tudo tinha sido solucionado. Ao abrir a porta sentiu o mesmo medo de sempre e recuou por um instante. E como que surgido do nada, um turbilhão de sentimentos o tomou e o levou aquela velha linha de raciocínio que tanto o atrapalahava, idéias ordenadas que só em sua mente faziam sentido.

Retornou a guardar suas coisas e pensou que talvez amanhã ele tivesse mais sorte.

domingo, 6 de julho de 2008

Em extinção

Acho que de todas as espécies em extinção aquela da qual sentirei mais falta é a gentileza. Tenho certeza de que posso viver sem o mico leão dourado, o jacaré do papo amarelo ou qualquer outro animal em extinção que me ficou faltando pra completar o álbum do chocolate Surpresa quando eu tinha dez anos.

Não consigo entender como é cada vez mais raro encontrar a gentileza no mundo de hoje. Seja aquela gentileza em cativeiro, feita como se fosse convenção social quanto sua versão mais rara, a gentileza espontânea que surge quando menos se espera.

É estranho, por ser algo simples era esperável que fosse mais comum, ainda mais quando quase todos gostam de que sejam gentis com eles, digo quase todos porque sempre existem masoquistas que gostam de sofrer, de chicote e de assistir ao Gilberto Barros.

Acho que sinto falta da gentileza, mas também penso que os álbuns da Surpresa têm mais chance de voltar.

Reclusão

Uma gota de suor teimava em descer de sua testa, mas nada daquilo lhe importava, cada gota daquela era o pagamento que lhe cabia pelo esforço realizado, pagamento que ele aceitava de bom grado diante de tudo aquilo que já tinha vivido.

Por um minuto parou e contemplou a bela tarde de sol que se avizinhava. Sentia-se leve, como se a marreta em sua mão fosse feita de isopor e sorriu ao admirar o sol se pondo nas colinas distantes do ponto em que estava.

Admirou-se ao notar pela primeira vez a imensidão de todo o mundo e sorriu ao se ver como parte de toda a grandeza que tomava conta de seus olhos. Ao ouvir o sinal, colocou a marreta de lado e decidiu dar o dia por encerrado.

Seguiu em direção da estrada de terra com a certeza de que finalmente havia encontrado a paz que tanto buscara e ela estava na terra que agora tocava seus pés. Depois de tantos anos percebeu que teria o espírito para cumprir o resto de sua sentença

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Jogada ensaiada

Parou a bola com seu pé esquerdo descalço, deixando-a em cima de um pequeno montinho no meio da rua de terra em frente à sua casa. Ele olhava de um lado pro outro pensando na próxima jogada

O jogo tinha parado por causa de um carro que passava. Ele adorava quando isso acontecia, era a hora de pensar na melhor jogada, de jogar futebol como se joga xadrez, dois toques e fazer o gol, gol rasteiro porque pelo alto não valia.

O carro se aproximava, aqueles mais distantes se movimentavam tentando antecipar o movimento e armar o contra ataque, mas ele já estava acostumado já tinha tudo calculado, os movimentos do seu time e do seu adversário.

O carro passou, bola rolada pra esquerda e uma ginga pra direita pra receber a bola no espaço que o marcador não estava, ele sabia que Zezinho ia correr e marcar a bola. Bola recebida e arrematada, rasteira, em direção do gol...

Dez anos depois ele faria a mesma jogada numa falta ensaiada numa final de Copa do Mundo, mas aí...aí ele marcaria.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Bodas

As abotoaduras foram um presente de seu filho mais velho, eram muito bonitas e lembravam as de seu pai. O terno foi um presente do seu caçula e era um belo terno negro de um estilista famoso que ele nunca ouvira falar. A festa foi um presente de sua filha do meio e ele sabia que já estava atrasado, mas sorria em saber que todos iriam esperá-lo, afinal ele era metade da festa.

Suas mãos já um tanto quanto trêmulas pela idade tinham uma certa dificuldade em dar o nó da gravata, mas isso já não lhe causava estranheza, o tempo chega para todos e até certo ponto foi gentil com ele.

Pensava em como os anos se passaram e em como nunca imaginou vivê-los com tanta felicidade , pensava no começo de tudo, de mãos dadas com ela olhando um entardecer na velha fazenda de seu avô que hoje nem existe mais.

Suspirou ao dar o nó na gravata e se preparou mentalmente para a festa dos cinquenta anos de casamento. Saiu para a sala e viu a família inteira reunida: viu filhos, netos, bisnetos, noras, genro e outros parentes.

Por fim seu olhar parou no dela, como já havia acontecido há mais de meio século, e ele se apaixonou como se fosse a primeira vez.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Primeiros passos

Felicidade. Algo que todo mundo parece buscar e muitos poucos alcançam. Acho essa visão um tanto quanto errada, acho que alcançamos a felicidade muitas vezes em nossa vida, mas somos como bebê que engatinha e por alguns passos consegue andar e volta a cair. O problema é que mesmo com esses pequenos passos não podemos dizer que o bebê anda, ele ainda engatinha.

Do mesmo modo, mesmo com esses momentos muitas pessoas parecem que não se consideram felizes. Acho que o importante não é prolongar os passos numa tentativa de ser feliz o máximo de tempo, para mim não é uma questão de aproveitar a qualidade desses passos. Minha única dúvida é: o bebê um dia andará. E nós seremos felizes de uma vez?

Voltarei a falar do tema



sexta-feira, 6 de junho de 2008

Agradecimentos

Eu sempre gostei de escrever, mas nunca achei que seria bom o suficiente para isso (e ainda não acho), fico com medo de parecer forçado, sou tímido para expor o que eu acho. Mas eu sempre gostei de escrever.

Para mim esse é um instrumento sensacional, conto minhas histórias, mesmo que ninguém as leia, reflito sobre coisas que acontecem comigo, dou palpite, desabafo, etc. Mas acho que devo aproveitar e agradecer alguem que há muito tempo leu um texto meu e disse que eu tinha potencial (mesmo que para se ter um blog não é necessario ter potencial, um par de polegares opostos já basta).

Bom, Professora Keila, obrigado por ser a única pessoa a dizer que eu escrevia bem.

Sonho eterno

Era uma noite clara de luar e toda a tribo como de costume se encontrava ao redor da fogueira, do mesmo modo como seus pais e os pais antes dele se fizeram durante tantas luas atrás. Para a pequena criança aquilo ainda soava mágico, mesmo que pra ele já não fosse mais novidade.

E o mais velho de todos começou a contar histórias de tempos idos, suas mãos criavam sombras que assumiam formas conforme seu relato prosseguia, atiçando a imaginação da pequena criança, que se sentia como se fosse parte da história.

Olhava para os gestos que iam até o céu e aquele lençol negro forrado de estrelas era seu sonho, se via como uma das pequeninas estrelas e pensava quantas delas já tinham sido crianças como ele um dia.

E seguia nesses devaneios ao som da voz do ancião até que seus olhos se tornaram pesados e ele adormeceu e nesse sono ele podia se tornar uma estrela e olhar toda sua tribo, sua floresta e os iluminar e proteger.

Seu desejo era tão grande que uma vez adormecido nunca mais acordou.

sábado, 31 de maio de 2008

Adagio

Bailando ao som da melodia que lhe invadia a alma, ela se sentia pura, leve e de certo modo até celestial. Bailava como se fosse um anjo que percebia naquele instante a sua condição de ente celeste.

Era como se tudo fosse uma só dimensão de luz e ela a fonte criadora de tão brilhante mundo. Seus labios reluziam num sorriso delicado, como se fosse a coisa mais natural do mundo ter tanta beleza existindo ao mesmo tempo.

As suas mãos acompanhavam cada nota como se estivessem tecendo a melodia do mesmo modo como a aranha tece sua teia. Ela ri da comparaçãoque fez, imaginando o que sua teia poderia pegar.

Tão breve quanto foi belo, a música acaba e ela se vê só novamente, no silêncio da sua casa, contemplando a noite pela sua janela e como quem volta a realidade, os problemas de sua vida a envolvem como se trazidos pela brisa que vem da janela aberta.

Rapidamente uma onda de melancolia surge do nada e o que era tão vívido se torna algo cinza, silencioso e triste. O que era tão belo e melodioso agora lhe parece tão distante. E o seu belo sorriso desaparece sem deixar vestígios.

Intuitivamente ela volta a chorar, relembrando todas as angústias que a música lhe afastara instantes atrás e cada lágrima sua que cai é de uma tristeza que ela não pode conter e irrompe por todo o cômodo.

Zero, pensa ela, essas são as chances de algo dar certo pra mim e fecha a janela pela última vez antes de ir dormir. Mal sabe ela que existe alguém que nunca a deixou de ver como um anjo.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Sobre o início

A pior coisa sobre escrever é como começar, um milhão de idéias na cabeça e nenhuma palavra, sílaba ou letra lhe parece ser apropriada para iniciar, espero que esse blog seja útil como uma forma de expressar minhas idéias mesmo tendo certeza que no início falarei sobre mim mesmo.

Pretendo escrever sobre tudo um pouco, sejam pequenos contos, comentarios acerca de situações que vejo ou simplesmente falar das coisas que eu gosto. Sabendo que nunca saberei ao certo se alguém irá ler algo que aqui escrevo.

Mas, enfim, é isso. Um começo pelo menos

Início

E ele ficou parado ali por um bom tempo olhando para aquela foto como se fosse a primeira vez que a via, como se fora a primeira vez que via algo tão lindo em sua vida, em certo sentido era realmente o momento inicial pra ele, não de tudo, mas de alguma coisa com certeza.

E ele imaginou como as coisas poderiam ser diferentes, como poderia ser melhor, como tudo o que foi planejado daria certo, como não seria o que ele é hoje, como o problema não é o fim em si, mas o longo processo que levava até ele.

E ele lembrou de uma palavra que ouvira na juventude durante uma aula qualquer que ele não se lembra por estar muito atarefado com seus jogos infantis e que agora lhe parecia muito apropriada: sahel.

E ele desejou por um instante ser aquela faixa de terra tão conflituosa, mas que ainda tentava ter um pouco de vida e se viu como o terreno fértil que se espanta com a rapidez da areia que lhe toma o restante da sua vida.

E ele se assustou com a menina que lhe perguntava: " Por que você olha tanto pra essa foto, moço?"

E ele não pôde lhe responder