sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A mosca

Seis horas da manhã. Ok. Já se passaram os cinco minutos que usava toda manhã para se preparar para o dia que teria pela frente. Olhou pela janela e viu que era um dia claro, sem nuvens e pensou que pelo menos seria agrádavel sair da cama.

E aprontou suas coisas, conferiu o que tinha de conferir, ligou a tv e olhou o noticiário. Ok. Trânsito ruim como sempre, nada que o afetasse como novidade, faz parte da vida moderna e todo mundo aguenta, não seria com ele que seria diferente.

Certo, tudo pronto, hora de sair. Pegou uma torrada e segurou um copo com suco de laranja e viu uma mosca pousada nele. Levantou o copo, a mosca parada como se nada tivesse mudado e para ele aquilo soou como desafio.

"Aonde já se viu uma mosca que não se mexe, nada, eu poderia tê-la matado, bicho estúpido, perdeu o senso de proteção?!". E decidiu que não iria prestar atenção na mosca, já estava atrasado mesmo. Não iria se atrasar mais pra matar uma mosca

Mas aquilo ficou com ele pelo resto do dia. Pensou na atitude desafiadora da mosca e ficou imaginando que talvez aquele bicho tivesse mais coragem do que ele. E decidiu provar que poderia desafiar o imponderável também.

Saiu do trabalho e atravessou uma rua movimentada e manteve o olhar desafiante mesmo vendo um ônibus vindo em sua direção, com a certeza de que a confiança o fazia se sentir seguro diante de qualquer situação, do imponderável.

Acontece que o ônibus não estava atrasado.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Conto de fadas

Era uma vez uma garota e um garoto, daqueles que você conhece, daquelas que você se identifica. Nada de diferente de tudo o que existe, nada de novo, pessoas tentando ser feliz em suas vidas como você também busca, como eu também busco.

Era uma vez um mundo cheio de momentos bons e ruins em que o acaso aparece frequentemente e as pessoas se encontram e se desencontram. E o garoto encontrou a garota num dia qualquer.

Era uma vez um segundo que pareceu uma eternidade em que um encontrou o outro, mas encontrou de verdade, não apenas viu, se encontrar mesmo, se achar um no outro de modo que não se restasse dúvida de que aquele era o ápice de suas vidas.

Era uma vez uma vida cheia de imprevistos, daqueles que parecem se pequenos, mas se acumulam mudando o curso de tudo aquilo que tínhamos planejado, nos afastando de coisas que nunca achamos que ficariam longe de nós. A parte triste é que o efeito vale para pessoas também.

Era uma vez um garoto e uma garota, mas como já diz o começo de nossa história...era.

No princípio era a palavra

Nada mais a dizer, talvez nem escrever seria possível, um branco, um silêncio, um vazio, nem metáforas mais conseguiam aparecer. O que fazer se nada mais saia de sua mente, de sua boca, de seus dedos?

O mundo fértil que existia em sua mente deixara de existir, era um deserto agora, uma cena inóspita dessas de um filme pós-apocalipse que passa na madrugada e que te bota a dormir antes da metade.

Sentimentos que fluiam com naturalidade sumiram, as histórias que sua imaginação lhe dava não mais existiam, as imagens em sua mente desapareceram e o deixaram com um livro em branco a ser folheado.

E parou para respirar por um segundo e percebeu que conseguiu escrever muito e dizer muito, mesmo sem ter certeza de ter algo a dizer, de que do nada também surge algo, que no princípio era a palavra e dela tudo nasceu.

Nunca mais temeu não ter o que dizer.

sábado, 8 de novembro de 2008

Esperando na janela

Com os cotovelos apoiados na janela e com o queixo apoiado nas mãos olhava para a chuva lá fora, com um ar de cansaço, como se não aguentasse mais esperar, olhando em volta de quando em quando.

A chuva teimava em insistir em cair e ele teimava em olhar. Num duelo de vontades tinha a certeza de que ganharia, pensava nisso confiante na sabedoria dos seus seis anos e de tudo o que vivenciara, como se os seis anos fossem seis séculos. Emburrava toda vez que alguém lhe contradizia.

A mãe sorria toda vez que ele ficava parando olhando na janela esperando a chegada do pai, acreditava que a boa relação entre ambos era o que ainda a mantinha em casa, dentro de um casamento que já morrera há muitos anos.

O que ela não sabia é que o menino esperava pra ver o quão bêbado seu pai chegaria e tinha em sua mente que toda vez que não estivesse na janela na hora de sua chegada seria um dia ruim. Mantinha-se firme lá na esperança de evitar um dia ruim.

"Menino, venha cá" disse sua mãe e lá foi ele correr a ajudá-la sabendo que era uma corrida contra o tempo.

O barulho da porta atrás dele o paralisou e aquela cicatriz em suas costas começou a doer novamente em antecipação.