terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Coração partido

Era uma dor, mas não era uma pontada, poderia dizer que era uma sensação, mas seria algo muito abstrato e o que ele sentia lhe parecia muito palpável, não podia ser uma sensação,definitivamente era físico, devia estar sofrendo alguma obstrução na artéria, algo de errado do ponto de vista fisiológico.

Mas não havia motivo para isso, não estava exausto, não se esforçara demais, se encontrava em bom estado físico, se exercitava e comia bem, seguindo a cartilha que qualquer nutricionista ensinava.

Às vezes esses problemas aparecem do nada, nunca se sabe, pode ser um problema congênito, algo que sempre teve e nunca desconfiou. Alguma coisa a ver com genética, nunca entendeu bem isso e o desconhecido seria uma boa explicação.

Colocou a mão no bolso para pegar o celular e discar para a emergência e um papel caiu no chão. Olhou para o papel e releu as palavras que tanto o magoaram e ficou claro para ele o que era ter um coração partido.

Rocha

Estava sentado no mesmo canto do quarto há alguns minutos quando a luz atravessou o vidro da janela vindo diretamente nos seus olhos e tirando-o do transe que se encontrava. Mas ele continuou imovel, mesmo que por dentro ele estivesse mais aceso do que nunca.

E os acontecimentos dos últimos meses vinham à sua mente, do início da doença de sua mãe e de como aquilo que não parecia algo sério foi evoluindo e a consumindo pouco a pouco. Cancêr, foi isso que o médico disse. Não que o nome pudesse mudar algo.

Lembrava de como estava triste, mas se manteve firme no dia do enterro dela, olhando ao redor e vendo como seu pai e seus irmãos menores estavam devastados pela perda, como se nada mais pudesse lhes dar força a seguir.

Seu pai achou que tal força estaria num copo, não força propriamente dita, mas algo que o mantivesse em pé pelo resto do dia. Mesmo que esse ritual fosse necessário em cada dia que estivesse por vir.

Nada poderia ser mais errado do que isso e a cada dia ele se afundava mais num universo próprio agindo de modo mais automático, indo embora aos poucos, tanto que ele não estranhou o dia que achou um bilhete de despedida na porta e o pai inerte na cama.

E agora lá estava ele sentado no canto pensando se seria o próximo a desistir. Mas sentia a mesma força que sentiu no enterro de sua mãe, e sabia que iria continuar, sabia que seria aquele que seria a rocha para seus irmãos, para que eles não precisassem sacrificar nada e serem rochas como ele. O desespero terminava nele. Sabia disso.

Abriu a porta e os viu olhando pra ele e olhou de volta com firmeza, com a certeza de protegê-los de tudo o que poderia aparecer. Abraçou-os e disse com uma voz baixa, mas decidida, "Sairemos dessa".

Fechou os olhos com a certeza de que não estava precisando se convencer.