sexta-feira, 6 de março de 2009

No gramado

Faz quase uma hora que está sentado no mesmo lugar, no mesmo gramado observando as pessoas passarem de um lado pro outro. O parque está mais cheio do que o normal, nada de anormal, considerando-se o fato de que é feriado e aqueles que não foram para a praia devem todos ter tido a mesma idéia. Pessoas não são originais, como eu também não sou, pensou ele.

Decidiu tirar o dia somente para contemplar o nada, admirar tudo o que existia, sentir o vento, ver as pessoas e refletir sobre sua vida. Mentira, estava com preguiça de arrumar o que tinha de arrumar e de adiantar o trabalho, mas sentia-se mais confortável em dar um verniz existencial à própria folga, se envolvia num lado mais místico de si e achava que isso o deixaria menos culpado.

Resolveu deitar um pouco, mudar de posição, contemplar só o céu e as nuvens, procurar ver significado em tudo o que via, nem que fosse só pra dizer que aquela nuvem parecia uma caravela ou que uma outra parecia o cachorro pequinês que sua tia solteirona tinha quando ele era garoto.

Fechou os olhos para abri-los logo depois com uma menina segurando uma bola e o encarando com um ar confuso. O que foi menina? Perguntou, meio que resmungando. Nada, só estou vendo o senhor. E ficou ali o fitando com o mesmo olhar. Voltou a fechar os olhos e a ensaiar um cochilo enquanto a menina estava ali.

A menina passou e disse que iria embora, pois não conseguia somente ficar sem fazer nada só a olhar a vida, que mesmo sendo pequena sabia que a vida deveria ser vivida, aproveitada e não meramente contemplada e que cada segundo é precioso pra sentirmos experiências únicas e não nos tornarmos vazios como a bola que ela segurava. Uma bela lição para aqueles que passam a vida vendo a passar.

Uma pena que ele já tinha dormido antes.

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