domingo, 26 de abril de 2009

Selva

Noite igual a todas as outras que vieram antes e todas as outras que estavam por vir. Reclinava-se para olhar o mar que era o congestionamento na via abaixo dele, um rio em vermelho de um lado e branco do outro, rodeado por árvores de pedra e metal de diferentes tamanhos, algumas reluzindo em azul, espelhando o quê? Não se sabe ao certo.

E ele lá olhando aquilo, fazendo metáforas, perdendo, passando, matando o tempo. Nada de novo, nenhum motivo em especial que o motivasse a isso. Estava apenas lá e via o que estava em sua volta.

Os sons eram irritantes, agudos, graves, altos, abafados, de todo o tipo numa sinfonia caótica que ressoava por todo o lugar dando uma sonoridade única, era o puro caos. Entrava por seu ouvido, rodeava sua mente, zombeteiro, tonteador, e saia como se rindo do idiota que ali estava parado.

Poderia ter saído, mas estava disposto a ficar e se provar superior a todo o caos que o rodeava e subiu na grade em que estivera reclinado e agia como se fosse senhor da selva, um leão urbano rugindo de volta pra natureza que era seu lar.

Seleção natural é algo que realmente existe pensou ao se desequilibrar e cair. Seu impacto foi apenas mais uma nota na sinfonia, seu corpo apenas mais um graveto no rio e as coisas seguiram seu curso normal, afinal, essa era uma noite igual a todas as outras que vieram antes e que estavam por vir.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sala de aula

Era uma torre de pedra, construção antiga, já possuindo plantas em volta de toda a parede. Ao me virar via que janelas estavam encrustadas na pedra, mas ao olhar pra cima percebia-se que o teto já não mais existia e isso já devia ser a muitos anos.

O céu era escuro, sem nenhuma estrela, mas não era preto, era azul marinho e em certos momentos parecia como se fosse um lençol colocado por cima de tudo, ou um pano, mas algo um tanto quanto mal feito, desses de peça de escola, em que se representa o céu apenas.

Ao me virar percebo que a torre era uma sala de aula, percebo carteiras, mas nenhum papel nelas, todas antigas de madeira, também tomadas por plantas, que acho que devem ser trepadeiras, sim, é isso, agora tenho certeza.

Há uma lousa presa na parede, algo escrito nela, mas estou muito distante mesmo estando na porta de entrada, ou no que restou dela. Devo me aproximar ou não? Não sei o que deveria aprender e não sei se quero.


Time

Things happen sometimes faster than you expect. A moment and it is all gone without a single thing to hold on and remember. One is left there with only a memory of what is gone and try to revive it over and over just to realize it isn't the same.

Things happen sometimes slower than you expect. It stays with you for more than you want and you feel like it won't go away, the seconds are years and you stand still, feeling alone and lost as it embraces you and turns you into stone. And there you are, caught by it.

Life is so fast, you grow, you experience and you enjoy the moments of conquests you achieve, people you meet, loves you find and savour the taste of each one. You creat life and you watch it grow, you face joy in tiny things and great people, so that when you are about to finish to end it you are ready to be gone.

Life is so slow, you face tasks, obstacles, you endure each one of them, you meet angry, bad people that in its selfish destroy every piece of you as you go on. You live a life of redundance doing the exact same things over and over again, destroying yourself a little bit more, and for what? Just to finish it, simple as that.

Time is a perspective indeed, who knows how you see it and for how long you will see it that way. For instance, you are sad that it is ending too soon or happy that it is almost over.

For me? Well, time's up.

domingo, 5 de abril de 2009

Aceitação

Era algo que há muito tempo ele sentia que deveria fazer, algo que sempre ficou escondido, mas que ele sabia que estava lá. Não era uma questão de ser diferente, pois isso era considerar os outros como iguais e ele sabia que ninguém era igual a ninguém.

Num primeiro momento parecia que era algo sem importância, uma fase, curiosidade, qualquer coisa que com o tempo sumiria e ele poderia ser igual a todos. Riu ao pensar na contradição que era querer ser igual e achar que tinha de ser assim, mais engraçado ainda pensar isso sabendo que o fato de sermos únicos era uma qualidade que ele apreciava nas pessoas.

Tentou se encaixar, tentou não pensar e por fim tentou esconder o máximo que podia. Se magoou e magoou outros pelo caminho, sentia-se culpado por ser do jeito que era, achava-se errado, desviado do que era certo. Mas acabava sempre pensando no que é o certo, no que é o importante e se acalmava sabendo que o certo era ser verdadeiro. Ser verdadeiro, essa frase ecoava em sua mente ultimamente e ele sabia que tinha, devia, precisava exteriorizar isso.

Olhando-se no espelho via-se ali, sem nada, sem preconceitos, sem crises, apenas ele. E nesse nada que era o tudo o que ele era a decisão se formou, não havia mais dúvida sobre o que ele devia dizer e disse primeiro a si mesmo: sou gay.

Saiu do quarto em direção à sala aonde estava sua família em uma reunião dessas sabendo o que tinha de fazer. Saiu e fechou a porta sabendo que não iria se fechar nunca mais.