segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Arranjo

Arrumou com delicadeza as flores que se achavam desmanchadas no centro da mesa da sala, flores que ja estavam murchando, adquirindo uma cor que claramente indicava o fim do seu ciclo de vida. Algumas tinham poucas pétalas, outras tinham, mas faltavam folhas, um aglomerado verde, branco e amarelo. Respirou fundo e manteve o mesmo ritmo até que aquele aglomerado se tornasse um arranjo, ainda que humilde, mas muito digno.

Olhou pela janela e viu que era uma manhã de sol, não exatamente de calor, mas clara. É um bom dia, pensou rapidamente. Abriu um pouco mais a cortina e olhou pela janela as pessoas indo e vindo, carros indo e vindo, animais indo e vindo. Mas a velha seringueira continuava lá. Assim como na época em que era criança e brincava no quintal daquela casa, casa de sua avó.

Voltou-se novamente para seus afazeres e imaginou o que seria a próxima coisa que deveria ser feita. A pilha de cartões jogada em outro lado pareceu o que devia ser feito a seguir. Mas o ânimo já tinha sumido, desaparecido como as pétalas daquelas flores. As flores... tão pálidas, mas ali, tentando seguir bonitas, úteis.

E como tudo ia, as flores ficavam, a seringueira ficava, as plantas, essas sim sabiam o que era importante, o que era ficar de verdade, enquanto tudo ia, tudo passava. Desejou ser como elas e ficar pra sempre nos momentos felizes que teve.

Não queria ser como o coração que entalhou na seringueira de um amor que passou, não queria lembrar da sua avó que há pouco a deixará, somente com as flores que formaram sua coroa como lembrete. Queria ficar, ficar pra sempre sem ir e sem vir, num momento permanente de felicidade.

E abraçou aquele humilde arranjo como se o mesmo representasse o momento que tanto ansiava em ter, deu um beijo, se despediu dele e seguiu sua vida.