domingo, 20 de setembro de 2009

Acordes

Terceiro ou quarto acorde, não, quinto, sexto no máximo. A dificuldade estava mais em se concentrar para ouvir do que propriamente em identificar o acorde. A sua mente já não estava mais aonde deveria estar e isso há um bom tempo já. Tempo que ele já não sabia nem mais contar, o que deveriam ser horas e minutos agora formavam uma longa e interminável linha que ele somente denominava tempo.

Espaço também não estava muito mais definido, havia uma noção de lugar de cima e baixo, mas a sensação de movimento era constante, não somente girando, se sentia puxado, como se estivesse na água e a maré o puxasse mais e mais.

Sua pele formigava como se o estivessem penicando aos poucos e ia aumentando a medida que ele tentava se movimentar se libertar daqueles dedos imaginários o tocando. E num movimento frenético, uma dança estranha ficava a se debater, até a dor passar enquanto ela não voltasse.

Devia ser a terceira ou quarta dose, não, quinta, sexta no máximo. O que era ainda mais bizarro era o carrossel de emoções, a euforia, a tristeza, o tudo. E cada sentimento trazia uma lembrança e sendo boas ou ruins cada uma delas deixava um algo amargo, seja por abrir uma cicatriz antiga ou por despertar uma nostalgia que lhe apunhalava o coração.

Respirou fundo e andou em direção à janela, olhou o mundo lá fora e decidiu abraçá-lo pela última vez. A brisa que estava lá fora era como se fosse um beijo de despedida e ele poderia partir com um sorriso no rosto.

Fechou os olhos, mas a música tinha terminado. Quantos acordes eram mesmo? Voltou e colocou de novo e dessa vez sentou até acertar. A sanidade aconteceu antes do acerto. Olhou e percebeu que não havia disco nenhum ali.



Nenhum comentário: