segunda-feira, 29 de abril de 2013

As feras

Se as feras que rasgam minha carne parassem por um minuto veriam que sou mais do que suas garras de mim retiram. Veriam que meu sangue é mais fluido que minha alma, que ele escorre mais que meus pensamentos, mas que o gosto azedo é mais suave que o amargo das minha decepções.

Dentes que me retalham em pedaços, mesmo que inteiro nunca pudesse ter sido, que pedaços invisíveis já se foram, como areia diante do mar, como espuma num rio, aos poucos e com isso os pedaços que ficam ainda que não pareçam são vazios, são nada diante do que eu era de verdade.

Que meus sentidos sumam, sumam todos de uma vez, porque perceber o mundo de nada me serviu, meus sentidos sempre foram instrumentos de chagas e não de prazer, que se detonem, explodam, que o nada me consuma até que do nada eu seja parte em meu todo.

Continuem feras, rasguem, retalhem, dilacerem, acabem com a totalidade do meu ser, que eu suma em pedaços num mundo que de mim não quis nada, pois agora dele eu não quero saber. E que no fim da minha existência as feras que da minha carne se alimentam  de nenhum outro possam mais isso fazer.

Um comentário:

Renata disse...

Muito intenso!!!