sexta-feira, 27 de junho de 2008

Jogada ensaiada

Parou a bola com seu pé esquerdo descalço, deixando-a em cima de um pequeno montinho no meio da rua de terra em frente à sua casa. Ele olhava de um lado pro outro pensando na próxima jogada

O jogo tinha parado por causa de um carro que passava. Ele adorava quando isso acontecia, era a hora de pensar na melhor jogada, de jogar futebol como se joga xadrez, dois toques e fazer o gol, gol rasteiro porque pelo alto não valia.

O carro se aproximava, aqueles mais distantes se movimentavam tentando antecipar o movimento e armar o contra ataque, mas ele já estava acostumado já tinha tudo calculado, os movimentos do seu time e do seu adversário.

O carro passou, bola rolada pra esquerda e uma ginga pra direita pra receber a bola no espaço que o marcador não estava, ele sabia que Zezinho ia correr e marcar a bola. Bola recebida e arrematada, rasteira, em direção do gol...

Dez anos depois ele faria a mesma jogada numa falta ensaiada numa final de Copa do Mundo, mas aí...aí ele marcaria.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Bodas

As abotoaduras foram um presente de seu filho mais velho, eram muito bonitas e lembravam as de seu pai. O terno foi um presente do seu caçula e era um belo terno negro de um estilista famoso que ele nunca ouvira falar. A festa foi um presente de sua filha do meio e ele sabia que já estava atrasado, mas sorria em saber que todos iriam esperá-lo, afinal ele era metade da festa.

Suas mãos já um tanto quanto trêmulas pela idade tinham uma certa dificuldade em dar o nó da gravata, mas isso já não lhe causava estranheza, o tempo chega para todos e até certo ponto foi gentil com ele.

Pensava em como os anos se passaram e em como nunca imaginou vivê-los com tanta felicidade , pensava no começo de tudo, de mãos dadas com ela olhando um entardecer na velha fazenda de seu avô que hoje nem existe mais.

Suspirou ao dar o nó na gravata e se preparou mentalmente para a festa dos cinquenta anos de casamento. Saiu para a sala e viu a família inteira reunida: viu filhos, netos, bisnetos, noras, genro e outros parentes.

Por fim seu olhar parou no dela, como já havia acontecido há mais de meio século, e ele se apaixonou como se fosse a primeira vez.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Primeiros passos

Felicidade. Algo que todo mundo parece buscar e muitos poucos alcançam. Acho essa visão um tanto quanto errada, acho que alcançamos a felicidade muitas vezes em nossa vida, mas somos como bebê que engatinha e por alguns passos consegue andar e volta a cair. O problema é que mesmo com esses pequenos passos não podemos dizer que o bebê anda, ele ainda engatinha.

Do mesmo modo, mesmo com esses momentos muitas pessoas parecem que não se consideram felizes. Acho que o importante não é prolongar os passos numa tentativa de ser feliz o máximo de tempo, para mim não é uma questão de aproveitar a qualidade desses passos. Minha única dúvida é: o bebê um dia andará. E nós seremos felizes de uma vez?

Voltarei a falar do tema



sexta-feira, 6 de junho de 2008

Agradecimentos

Eu sempre gostei de escrever, mas nunca achei que seria bom o suficiente para isso (e ainda não acho), fico com medo de parecer forçado, sou tímido para expor o que eu acho. Mas eu sempre gostei de escrever.

Para mim esse é um instrumento sensacional, conto minhas histórias, mesmo que ninguém as leia, reflito sobre coisas que acontecem comigo, dou palpite, desabafo, etc. Mas acho que devo aproveitar e agradecer alguem que há muito tempo leu um texto meu e disse que eu tinha potencial (mesmo que para se ter um blog não é necessario ter potencial, um par de polegares opostos já basta).

Bom, Professora Keila, obrigado por ser a única pessoa a dizer que eu escrevia bem.

Sonho eterno

Era uma noite clara de luar e toda a tribo como de costume se encontrava ao redor da fogueira, do mesmo modo como seus pais e os pais antes dele se fizeram durante tantas luas atrás. Para a pequena criança aquilo ainda soava mágico, mesmo que pra ele já não fosse mais novidade.

E o mais velho de todos começou a contar histórias de tempos idos, suas mãos criavam sombras que assumiam formas conforme seu relato prosseguia, atiçando a imaginação da pequena criança, que se sentia como se fosse parte da história.

Olhava para os gestos que iam até o céu e aquele lençol negro forrado de estrelas era seu sonho, se via como uma das pequeninas estrelas e pensava quantas delas já tinham sido crianças como ele um dia.

E seguia nesses devaneios ao som da voz do ancião até que seus olhos se tornaram pesados e ele adormeceu e nesse sono ele podia se tornar uma estrela e olhar toda sua tribo, sua floresta e os iluminar e proteger.

Seu desejo era tão grande que uma vez adormecido nunca mais acordou.