sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Incertezas

Decidir nunca foi fácil, uma miríade de opções sempre foi algo que lhe deu o maior prazer, qual o sentido em decidir, não é tão melhor manter uma opção, manter o caminho aberto, afinal qual seria o sentido de se fechar uma porta?

O mundo é repleto de oportunidades e cada uma delas lhe parecia ser mais excitante do que a outra e parecia ser absurdo ter que abdicar do que poderia ser. Tinha firmemente decidido que a única decisão que tomaria em toda sua vida seria a de que nunca iria decidir nada na vida de forma definitiva.

E assim foi, seguiu sua vida tendo este pensamento em mente em cada encruzilhada que a vida lhe apresentava. Viajou, viveu, namorou, curtiu o máximo que pode até eventualmente o tempo chegar e a velhice ser sua companheira.

Parou e com um sorriso no rosto e pensou em tudo o que tinha feito, mas aquele pensamento que o acompanhara durante toda sua vida desaparecera ao perceber que todas as oportunidades que achara ter abraçado não eram suficientes para compensar as decisões que ele abdicara.

Estava só, não fizera a decisão de amar alguém; estava doente, não decidira se cuidar; estava arruinado, não guardara nada do que ganhou durante a vida.

E ao viver em cima de incertezas chegou à certeza de que tinha errado.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

To the moon and back

Meu gosto musical sempre foi influenciado por minhas amigas, passei a gostar de certas músicas por estar com determinadas pessoas. Algumas que nem vejo mais, mas a música delas permanece. Estranho como certas coisas ficam.

Lembranças são coisas engraçadas, passo a gostar de tal música, de tal cantor por causa de alguém, mas a própria pessoa não vejo mais. Mas a marca dela fica em você, ouvindo a música você passa a apreciar algo que sozinho talvez não se aprenda.

Acho que no tempo que dura a música não se pensa em porque terminou uma relação, porque se afasta da pessoa, em nada do que de ruim aconteceu com o tempo. Para ser sincero, nem o de bom se lembra, durante a música só se tem a lembrança do momento em que ouviam juntos, o que por si só já me parece bom.

Enfim, lembranças musicais são engraçadas, mas infelizmente duram em média três minutos.

Multidão

Uma manhã como qualquer outra, andando em direção ao trabalho, apressada, como sempre, atrasada como sempre, em meio à multidão que provavelmente tinha a mesma motivação que ela.

Nunca gostou de multidões.

Se sentia espremida, fechada, quase que enclausurada em meio à tantas pessoas. Pensava em um milhão de coisas ao ir em direção ao serviço, fechava-se em si mesmo, colocando-se numa espécie de piloto automático.

Odiava aquela gente toda, odiava o cheiro, o barulho, a visão. Achava que era uma tortura à todos os sentidos. Só de pensar nisso antes de sair já lhe causava arrepio, tremia toda como se tivesse insetos rastejando em sua pele.

Como era bom chegar em sua sala, sentar sozinha com suas coisas, no silêncio, somente ela, com seus pensamentos, sem nada a distrair, sem ter que se preocupar, com todo o tempo do mundo. Parou então por um minuto e abaixou a cabeça.

Nunca gostou de estar sozinha.

domingo, 10 de agosto de 2008

Recomeço

Com o coração acelerado, ofegante, nervoso, parecia que ainda lhe faltava muito para chegar ao encontro dela, o recado que lhe fora dado horas atrás ainda ecoava em sua mente. "Preciso falar urgente com você".

Um milhão de pensamentos corriam em sua mente, um pior que o outro, levando-o à uma retrospectiva dos acontecimentos da última semana, das brigas, dos desentendimentos, dos mal entendidos.

Todos esses pensamentos só o levavam à uma conclusão: é o fim, ela não me quer. E uma dor no seu peito mostrava quanto o fim lhe era doloroso. Não queria isso, a amava com a mesma intensidade desde o primeiro beijo e sabia que era muito desajeitado para dizer com clareza o quanto a amava e isso certamente foi o que acabou com tudo.

Ainda sem fôlego chegou e abriu a porta rapidamente querendo uma solução para seu dilema. Entrou na sala e ela ali parada com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto surrando um "eu te amo, estou grávida".

Todos os seus pensamentos que até ali o acompanharam desapareceram consumidos por uma onda de felicidade enquanto ela o abraçava. A felicidade por si só se mostrou algo arrebatador, curando feridas e pavimentando novos começos.

E para ele, este era um novo começo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Caixa de música

Parados olhando um pro outro no meio da praça, entre o escorregador e o balanço, ficaram admirando seu mais novo brinquedo, de modo a não mais notar os antigos brinquedos que de tanto usarem já lhe pareciam cansativos.

Era uma pequena caixa de madeira entalhada com detalhes em dourado que o menino tinha em suas mãos. A menina, menor do que ele, se colocava na ponta dos pés para tentar enxergar algo, sem muito sucesso.

Abaixando-se um pouco o menino abriu a caixa e dentro dela uma pequena bailarina começou a girar ao som da música que tocava. Ficaram um tempo olhando para aquilo sem muito o que entender.

Entendiados com a simplicidade do que consideravam um brinquedo, fecharam a caixa e o menino tornou a guardar em seu bolso. Foi brincar com os outros um tanto quanto decepcionado, esperando algo mágico naquela caixa que fazia sua mãe sorrir e chorar ao mesmo tempo.

O que ele não poderia saber na juventude de seus cinco anos era que aquela caixa era tudo o que sobrara da mãe que sua mãe nunca conhecera.